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domingo, 3 de junho de 2012

Suzano

A uns 4 meses atrás, fui fazer uma reunião com uma amiga de um amigo sobre um projeto de arquitetura na cidade de Suzano. Saí de lá na certeza de que eles não aceitariam minha proposta. A certeza se baseava no irmão estúpido da amiga, que queria que desenhasse o que ele queria, sem nenhum cabimento.

Hoje voltei pra lá, com motivos mais nobres, menos individualistas. Acabei integrando, onde trabalho, mais uma equipe, que desenvolveu o projeto para 144 famílias da associação de moradores de lá. Do jardim Natal, mais especificamente.

Visitamos, de carro, os dois terrenos, ainda livres, ainda com mato - embora um tenha sido limpo recentemente. Coincidentemente, este último está a duas quadras do lugar que visitei a 4 meses atrás. Mas, fomos para lá para acompanhar a assembléia desse mês, onde os 144 se reúnem para falar de pautas específicas a eles. Fomos eu e meu mais novo colega de trampo e de bebidas.

Foi impossível não fazer um paralelo às reuniões que fazia em Embu. E muitas coisas diferem de uma experiência à outra. Quando, em Embu, eu fazia reuniões, agora eu acompanhava e aprendia  afazer intervenções com meu colega.  Em Embu, eram no máximo 19 famílias, agora eram 144. Em Embu, eu imaginava, e incentivava, sempre, ao pessoal se organizarem e serem mais unidos. Em Suzano, eles já estavam agregados, tinham lideranças, sabiam ouvir e respeitar os falantes. Em Embu eu penava para dar respostas de perguntas cada vez mais duras, e muitas vezes a reunião acabava com gosto amargo.

E aí acho que entendi que, por mais estressante que fosse nosso papel no Estado, meu trabalho era relativamente mais fácil. Não sei precisar porquê. Numa assessoria técnica, logo vi que nosso papel seria bem mais dificultoso. Também não sei precisar porquê. Acho que terei a resposta em algumas semanas.

Mas, não foi difícil também imaginar como seria o futuro do Valo Verde, por exemplo, se fossem organizados e unidos como o pessoal do jardim Natal. Teriam algumas boas diferenças. O pessoal com quem me encontrava em Embu eram muito mais aguerridos que esse de Suzano. Talvez a diferença da renda seja uma boa resposta a essa grande diferença: os de Suzano era visivelmente melhores de vida que os de Embu.

Talvez eu tenha me enganado. Mas os de Suzano são mais pacíficos, mais tranquilos, talvez por terem tudo na mão, sempre. São o pessoal mais próximo da "nova classe c" que já conheci nos movimentos de moradia (e, infelizmente, conheço poucos). Não lutaram pelos terrenos, não tiveram casas incendiadas, não moravam em áreas de risco. Por outro lado, eles vão ter de se organizar para construírem suas próprias casas, para fazerem uma auto-gestão funcionar até o fim. Eles são os donos da construção.

Voltei com um misto de apreensão e felicidade. E bem mais pensativa sobre a vida.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pedreiros

Voltei a Embu, voltei a visitar as obras e as favelas.
Mas só por um dia.
Que foi suficiente para muitas emoções pelo resto da vida.
No começo da semana disse a uma amiga que tinha muito orgulho de ter trabalhado lá.
Hoje me senti novamente muito feliz, mesmo com os mesmos problemas de quando estava lá.
Porque ver a alegria dos pedreiros me renovou muita coisa quase esquecida.
Ver a felicidade deles me mexeu mais que a alegria dos novos e antigos moradores do Valo Verde. Mais que o jogo de futebol com os filhos de uma delas.
Os pedreiros ficaram felizes pela minha rápida visita a eles. Não sei o que achavam de mim, mas eles, de fato, me ajudaram muito no meu começo de experiência de obras. Sempre pacientes, sempre solícitos.
Me defenderam quando eu estava sem forças, quando recebi acusações injustas.
Todos, com mais de sessenta anos, me abraçaram hoje como se fosse uma da família deles.
Rimos com as conversas e com as piadas que nem parece que em algum lugar ainda existe a hierarquia pedreiro-mestres de obra-arquitetos.
Acho que nunca fiquei tão feliz.
Porque, no fim, eles eram os protagonistas. Eram quem traduziam minhas "ordens" (ou sugestões) em um trabalho impecável.
Sempre os tratei com nenhuma hierarquia. Pedia um serviço como quem pede um favor a um amigo.
E eles, sempre me tratando com respeito.
Um deles me repetiu hoje a mesma coisa de quando eu saí: "Você nos trata bem, não é desses que não se mistura com a gente."
Fiquei feliz pelo máximo que pude fazer. E sei que poderia ter feito mais. Pena que minha fraqueza foi maior.
Mas hoje, pelo jeito, sei que fiz alguma diferença na vida deles.
E sei que eles fizeram na minha também.
Todos me desejaram muito sucesso na vida. Todos me abençoaram, via deus. Não sei se consigo retribuir na mesma moeda, mas sei que eles serão sempre muito queridos por mim.

Ir pra Embu sempre me afeta muito. Sempre me transforma numa pessoa melhor.
Acho que vou sempre precisar de idas pra lá.
Porque, mesmo com os problemas, mesmo não conseguindo resolver nada, mesmo que eu tenha saído de forma abrupta e, em parte, contra a vontade, Embu fez a diferença em mim. E vai ser sempre uma das melhores experiências que tive. Porque o aprendizado e as amizades verdadeiras foram infinitamente maiores e melhores que os problemas pelos quais passei.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sobre chefes

Eu tive dois empregos que me marcaram muito nessa vida, até agora.

Um foi em Campinas, ainda como estudante de Arquitetura, num escritório que fazia projetos de iluminação. Antes de ir pra lá, eu trabalhei numa assistência técnica a uma grande empresa de luminárias. Fazia projetos pro Brasil inteiro. Um dia me cansei, fiquei de molho um mês em casa, depois fiquei cerca de 3 meses num escritório fajuto de arquitetura, e logo fui chamada por um colega para ajudá-lo no escritório que ele havia recém-aberto. Só trabalhava com iluminação, e como era eu, ele e mais um instalador eletricista, tínhamos isonomia total. Quando o negócio tava dando muito certo, eu fazia alguns projetos e meu "chefe" fazia outros. Tudo era decidido coletivamente, desde o orçamento a ser entregue ao cliente quanto às soluções de projeto. As reuniões com os cliente ficavam a cargo do chefe, com muito mais lábia que eu, e a mim cabia convencer o cliente através da matemática e dos programas específicos. O salário não era típico de estagiário, eu recebia quase que como profissional recém-formado. Me bancava o aluguel e as cervejas, e isso me bastava. Fiquei lá de 2005 a 2008, até me formar e decidir voltar pra São Paulo.

O outro trampo foi mais tarde, em 2009. Funcionária pública da cidade de Embu das Artes, trabalhando diretamente com coordenação de obras - principalmente - e muitas outras coisas secundárias, envolvendo favelas e habitação de interesse social. Fazia de tudo um pouco, mas ainda com a mesma isonomia do trabalho de Campinas, sendo este conquistado com muito trabalho. Foi lá que firmei em mim mesma minhas convicções políticas, foi lá que me desapeguei de muita coisa, foi lá que vivi com o mínimo possível morando de aluguel e ainda pagando minhas cervejas, morando no centro de São Paulo. Ainda era o que bastava à minha vida. Desse emprego já falei muito por aqui.

O que tem de comum nos dois lugares era a confiança dos chefes e a isonomia, cada um fazendo sua parte para o todo, cada um de nós contribuindo no melhor que podiam. De modo que, quando chamo de "chefe" cada um deles, nada mais é que uma maneira irônica de chamá-los, já que de forma alguma eram chefes no modo hierárquico de se resolver a vida profissional. Eram colegas e, antes de tudo, amigos que me ajudavam de toda forma possível. Me ouviam, me davam conselhos, me davam cerveja e me faziam rir e refletir através das inúmeras histórias. Cada um a seu jeito. E que sabiam confiar, delegar tarefas e passar responsabilidade como se fôssemos todos iguais. E éramos. Bons tempos...!

E me coloquei a postar isso hoje porque, depois de 4 anos, revi meu chefe de Campinas, com a banda dele aqui em São Paulo, onde colocamos a conversa em dia, rimos bastante e me bateu uma baita saudade da vida campineira muito tranquila e cheia de responsabilidades, ainda assim.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Mais uma história de resistência


No dia que aconteceu tudo de pior no Pinheirinho, em São José dos Campos (ocupação em terreno ocioso de um pilantra imbecil que tem costas-quentes num governo louco por poder e que adora bater – literalmente - em quem atrapalha seu caminho), eu estava em Embu das Artes, de volta por um dia. Fui ajudar uma amiga numa pesquisa envolvendo as casas do pessoal reassentado em três projetos habitacionais de lá (no qual tive prazer de conhecer tanto a obra quanto os moradores, na minha passagem de dois nos por lá).

Cheguei em casa à meia-noite com um misto de alegria e de saudade. Feliz demais com o dia. Mas dou uma zapeada pelo facebook e leio milhares de mensagens sobre a violência covarde da PM em São José dos Campos. O que me fez escrever a história de um morador do Valo Verde, um dos locais de intervenção urbanística e habitacional que eu mais frequentava em Embu (e o que eu mais gostava - ainda gosto até hoje).

O Valo Verde era um dos lugares mais perigosos de Embu na década de 70 até o fim dos anos 90 [Embu das Artes era sinônimo de desova de corpos, ironicamente conhecida também pela feirinha de artes]. O Valo era uma favela sem as mínimas condições de habitabilidade. Barraco em cima de barraco, com o agravante de estarem próximos a um córrego que era o esgoto a céu aberto.

[Não conheci o bairro naquela época, mas quando ajudei na mudança do lugar onde trabalhei, achei uma caixa cheia de fotos e notícias do lugar, as quais fiquei horas olhando enquanto deixava a chefe na mão durante a mudança. E é essa a impressão que tenho de lá, naquele tempo].

Em cima da favela, na parte mais alta, a CDHU era - e ainda é - dona de um grande terreno, e queria fazer mais prédios por lá. Para fazer a obra, era necessário “limpar” o lugar para construir um muro de arrimo gigantesco. O “limpar” era retirar o pessoal da favela.

Um dia os moradores são surpreendidos por uma cavalaria da polícia militar e cerca de 20 caminhões-baú, para remover toda aquela gente de lá. Uma baita de uma confusão se instaurou no lugar, com os policiais querendo tirar o povo, e um vereador novato fazendo a negociação com o chefe da operação. Alguns moradores se exaltaram e brigaram com a polícia, mas não foram bem sucedidos. Ao fim, negociaram e deixaram a população lá. Não haveria reintegração de posse (nem deveria, o terreno que queriam limpar era – e ainda é – municipal).

O governo estadual teve a derrota. Governo, na época, de Mário Covas.

Mas isso não era sinal de calma. Por muitos dias a polícia aparecia insistentemente na área, causando medo na população, mesmo sem fazer nada fisicamente. Alguns dias depois, alguém do governo municipal apareceu por lá e pediu pra montar uma comissão urgente de três representantes da favela, para irem a uma reunião na CDHU exporem seu ponto de vista e pressionarem por paz. Um dos integrantes era o morador que me contou essa história. Ele me diz que foram à CDHU (que na época era na avenida Nove de Julho) e lá soube que o dirigente com quem conversaram tinha dito que já havia feito acordo com o município e não teria nenhuma ação por conta deles. A favela estava salva.

O fato é que a CDHU construiu mais prédios na área, não fez remoções indevidas, o município passou a investir um pouco mais no local e hoje, me dizem, o Valo Verde é um paraíso perto do que era.

Valo Verde - em 2003 e em 2007

Coincidentemente, soube dessa história no mesmo dia da covardia em São José dos Campos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Mas

Eu minto quando digo que quero sair de Embu. Eu minto quando digo que é melhor sair de lá e ir pra outro lugar. Eu minto, quando percebo que minha ironia é tanta que esconde a realidade: meu nervosismo, meu medo, meu fracasso.

O que eu queria era sobrar sozinha, ou com mais gente competente ao meu lado. Pessoas que me ensinam, que possam me ensinar muito mais. E que eu, na minha modéstia, possa passar um pouco do que sei a quem merece. A quem me ouve, mesmo nos meu murmúrios, lamentos e frases rápidas.

Mas, isso nunca vai acontecer. Eu nunca vou concordar com imposições ridículas, mas também nunca vou conseguir mudar mentalidades banais. Quiçá mentalidades inteligentes. Aliás, porque mudar as pessoas? Aliás, porque aceitá-las tão frivolamente?

Descobri onde eu pertenço. Descobri a quem trabalhar. Não sei se daria certo em algum outro lugar. Mas, descobri também, que não pertenço a lugar sujo. Não pertenço a administrações sujas.

Acho que é hora de ter iniciativa e colocar algo de bom em prática. Sem governos, sem hierarquia. Apenas com pessoas compromissadas ao lado.

Mas, também acho que isso nunca vai acontecer.

Mas, sou teimosa e burra o suficiente para tentar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Primeira reunião

Hoje me lembrei da primeira reunião que tive numa das comunidades que trabalhamos em Embu.

Eu era novata no trampo, devia ser a terceira semana de trabalho. Isso foi em julho de 2009.

Depois de ouvir, numa reunião geral, que deveríamos fazer uma reunião no Valo Verde por causa de algum relatório que a Caixa pedia, a idéia ficou no ar. Minha chefe ia sair de férias, eu mal tinha tempo de entender onde ficava tais lugares que fazíamos intervenção, e ainda por cima tinha de me apressar para fazer dois orçamentos de duas obras que não fazia idéia nenhuma.

Ficava enfurnada com o computador o dia inteiro, o que me fez levar minha primeira de inúmeras broncas da chefe (algo do tipo: "Leila, quando é que você vai falar comigo? Eu nem conheço tua letra!).

Enfim, um belo dia às quatro da tarde a atual assistente social me "intima" a ir na reunião que ela marcou no Valo Verde, de um pessoal que já tinha recebido a casa em 2008. A reunião seria à noite, eu tava empolgada com o trampo e disse que tudo bem. Às cinco horas vejo ela indo embora, e ninguém ficando pra ir na reunião comigo. Ainda recebi bronca porque não tinha combinado com ninguém pra ir (porque eu precisava pelo menos de um motorista - não sei dirigir). Acho que foi ela que ligou pra antiga assistente social, que tinha saído a pouco tempo do escritório e trabalhava em outra prefeitura, mas tenho mais certeza de que foi a orientadora social da época (que também já saiu do escritório), que no fim aceitou ir comigo. As duas.

Bom, eu não sabia onde era, não tinha marcado a reunião, não sabia quem eram as pessoas, nunca tinha tocado reunião em comunidades, era novata no trampo e de profissão, os mais velhos de escritório tinham jogado a bomba na minha mão, e eu não sou assistente social. Pra mim, seria um desafio, e abracei de corpo e alma.

Fomos no carro da antiga assistente social, e chegamos na casa de uma das moradoras. Nunca "apanhei" tanto na vida, porque obviamente eu não sabia de nada. Dos problemas e das promessas. As duas do Social me ajudaram muito. Me apresentaram, disseram que sou novata, consegui resolver alguns problemas, e outros deixei pra pensar depois. Acho que me saí muito bem, modéstia à parte, para quem nem sabia onde estava.

A moradora que cedeu a casa se tornou uma boa companheira de conversa durante as visitas que faço à obra. Me dá café, me conta da vida, me ajuda ao contar das inúmeras histórias do Valo Verde. E eu ajudo no que posso, em questões técnicas de Arquitetura.

Quando minha chefe voltou das férias, ela recebeu uma ligação da moradora acima, dizendo que tinha alguém da prefeitura querendo derrubar o muro dela, e que eu tinha autorizado a fazer, com algumas modificações que fizemos nessa mesma reunião. Quando ouvi a chefe dizer "-Se a Leila falou, tá valendo, é como se eu estivesse na reunião e autorizado também.", senti o peso da responsa e orgulho de ter alguma confiança sobre mim.

Mas o caso é que me lembrei da assistente social que me ajudou e me apoiou na minha primeira reunião na favela à noite por causa de uma conversa com a chefe, hoje à noite.

E me lembro dos detalhes acima como se tivesse acontecido ontem. Me marcaram bastante.
E me lembrei porque tá foda aguentar muita coisa. Lembrar esses tipos de coisa me fazem ficar mais tranquila e ver algum sentido nessa vida embuense.

sábado, 4 de junho de 2011

Sobre os moradores de favelas

Em praticamente dois anos de trabalho com habitação de interesse social, sempre me surpreendo com os moradores das áreas que trabalhamos. Com as suas ações, indignações, alegrias e esperanças.

Tem de tudo um pouco. Moradora que "bateu" uma laje nos fundos e fez uma varanda no quarto; morador que transformou a entrada da casa em comércio de n tipos (cabeleireiro, bar, floricultura); cores e mais cores dentro das casas, tv's de plasma na maioria delas.

Sobre a interação com eles, também tem de tudo. Já bati boca com morador teimoso que queria alargar o muro de entrada; com morador que achava que rolava privilégios estranhos para atendimento.

Mas já recebi inúmeros convites para tomar café. Já tomei café e coca-cola com outros tantos, já sentei e tomei café da manhã com outra moradora, já conversei e falei da vida com mais um monte. Almocei na casa de uma, ganhei um perfume de outra. Já me pagaram um café na padaria, já paguei muitas cocas nos mercadinhos locais.

Soube da vida de muita gente que trabalhou comigo nos mutirões. Recebi muitos elogios de muitos moradores, e muita compaixão de outra parte que acha que não mando nada (e, talvez, seja isso mesmo). Recebi muitos xingos e muitos dedos em riste, por não saber resolver na hora problemas geralmente complicados. Lidei com problemas sociais que passam ao largo da necessidade de uma casa.

Já passei por situações em que não sabia o que fazer. De casas caindo que não estão contempladas em projeto algum, de cubículos sem infra-estrutura básica com mais de 5 pessoas morando, quando nem uma caberia. De mulheres violentadas pelos maridos. Enfim, situações arquitetônicas, urbanísticas e, principalmente, sociais.

Sei que represento, pra muita gente, o descaso do Estado com eles. Mas, sei também que às vezes represento a única pessoa do poder público que conversa com eles. Nem que seja pra falar de futebol. Sei, também, que com um pouco mais de dedicação e ambição, posso trazer um pouco mais de conteúdo político, e pode ser que a organização deles deixe de ser um pouco menos individualista e mais coletivista.

Eu não sei se eles pensam que tô nessa vida pela grana; se eu tenho algum esquema na política; se eu tô lá a passeio. Eu não sei o que acham quando eu apareço aos sábados e domingos, trabalhando por algo que vai beneficiar a eles, e não a mim (até porque, faz uns 5 meses que não tenho fim de semana tranquilo). Eu acho que nem meus colegas queridos de trabalho e nem meus amigos chegados sabem exatamente porque trabalho nessa área. Porque sacrifico muitos fins de semana por isso.

Só sei que, apesar de tudo, trabalhar em favelas me fez ver sentido em muita coisa. Me fez desapegar muito de coisas materiais. Me fez dar o devido valor a tudo que tenho. Me fez ser uma profissional transparente (até demais da conta). Me fez reavaliar minhas convicções políticas. Me fez ter lapsos de esperança na humanidade. Me fez, finalmente, dar o devido retorno a quem realmente precisa.

E, acredito que, assim como a FeNEA começou a moldar meu caráter, esses trampos em favelas me fizeram ter certeza de quem eu sou. Mudou minha vida na mesma proporção.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Impressões

No trampo, sou conhecida como:

- a mau humorada;
- a quieta e tímida;
- a que odeia eventos políticos e faz questão de dizer isso;
- a que só se alimenta de coisas toscas (como por exemplo café da manhã = coxinha e coca-cola, além do gosto por chocolate recheado com conhaque da Pan);
- a que adotou o mutirão como estilo de vida;
- a que é chamada de Xeila por todos, graças à falha de comunicação da advogada (que pra mim vai fazer uma falta enorme. Por ser uma das pessoas mais éticas que já conheci. Por ser uma das 2 pessoas que confiaram em mim nos quiproquós do fim do ano passado).

Semana do cão no trabalho. Se acreditasse em deus, rezaria por tempos melhores. Mas, "pra tudo mudar, tem seu tempo".

Sem perspectivas pra mudanças pra melhor, por enquanto. Infelizmente.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mais um ano

Diminuí consideravelmente a quantidade de palavras por aqui.
Por falta de tempo, falta de assunto, falta de vontade.
Mas os pensamentos continuam fortes, pesados e confusos. Pra variar.

Mas acho que, agora, pós-aniversário, a vida vai tomar um rumo e um sentido, e ficar menos "ao deus dará".

Aniversário, aliás, que consegui reunir os bons amigos de sempre que estavam por SP, que bebi até fechar os bares do centro. Que teve boas conversas, um bom clima e bons pensamentos. Que teve bom abraço da arquiteta e Red Label do arquiteto, confiáveis amigos que Embu me trouxe.

E, no dia após a bebedeira do ano, finalmente retomei a história do mestrado, que parece que vai virar um projeto temático, algo maior do que tinha pensado. Com a ajuda de uma grande pessoa que vai me guiar no fantástico e obscuro mundo do mestrado na USP.

Fora o trampo em Embu, em Taboão, com os sócios da faculdade, o possível mestrado e os bares semanais, a vida continua bem. Só falta paciência para acabar com os momentos baixos ou, pelo menos, tirar uma lição melhor deles.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Mutirão

Eu nunca tinha participado de um mutirão. Só visto e lido sobre.

Daí que na primeira reunião com a demanda das obras do Valo Verde, foram os próprios futuros moradores que se ofereceram pra ajudar, mesmo com a gente (mais eu e minha chefe) pensando seriamente em propor isso a eles na reunião.

Foi um tanto espontâneo, e na semana seguinte lá estava eu organizando o primeiro dia de mutirão. Eu, que nunca participei, estava coordenando o que fazer.

E, no dia anterior, lá estava eu nervosa sobre como lidar com isso. Porque no fim eu iria sozinha. Eu e mais um mestre-de-obras novato em mutirão. O que me valeu uma boa conversa com a chefe no dia anterior, me acalmando e passando todas as dicas.

Fiquei a semana inteira pensando, organizando, monitorando a obra pra ver o que o pessoal podia fazer no sábado.

No sábado, eu cheguei 10 minutos atrasada. Todo mundo já tava lá, com tarefas específicas. Homens e mulheres fazendo um pouco de tudo. O mestre soube bem organizar e despachar tarefas sem mim.

Cheguei, passei protetor solar (tava um calor de 30ºC) e comecei a ajudar em tudo. Porque, se era pra fazer parte, tinha de ajudar no trabalho pesado também.

Separamos material, limpamos a obra e levamos o material pra dentro dos tapumes. Tudo isso antes do almoço.

Na volta, concretagem. Trabalho pesado que foi divertido com 12 pessoas. Mas, ainda assim, estava nervosa. Pelo traço do concreto certo, pelo enchimento correto, por assegurar trabalho pra todo mundo. No fim, em duas horas, tudo certo. Acabamos a tempo, pois logo começou a chover forte.

Depois disso, todos prontos pro mutirão do fim de semana que vem, agora com a chefe coordenando enquanto eu resolvia outras coisas em Embu mesmo. Assim que resolvi, parti pra lá pra fazer parte. Passei o resto da manhã desse sábado carregando blocos e ajudando a organizar tudo.

E foi legal perceber que, por mais que a gente programe e organize, os mutirantes tiveram a boa vontade e a garra de fazer de tudo pra ajudar. Levaram o mutirão pra frente sem ter de receber ordens, só aceitando sugestões.

Valeu a pena ficar com o corpo doendo o domingo inteiro, dormir mal de ansiedade, "perder" o sábado trabalhando.

Porque fez a diferença conhecer melhor o pessoal que vai morar lá. Ganhar um "feliz natal" deles, mesmo para alguém que não é católico. Receber o respeito e o reconhecimento deles hoje, quando só passei pra dar um alô e na volta, quando voltei pra ajudar. Conversar de igual pra igual, sabendo mais da vida deles e eles, da minha. Fazer brincadeiras no meio do trampo pesado.

Porque percebi que esse tipo de trabalho me fez esquecer todos os problemas que estão acontecendo comigo. Tipo uma limpeza da alma.

Incrivelmente, deu tudo certo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Falta de coragem

Como eu esperava, quase fui demitida hoje.

O motivo?

Não fui a inúmeros eventos políticos realizados pela prefeitura de Embu.

A gota d'água foi nessa sexta e sábado, na qual fui convocada, junto aos demais funcionários, para ir a dois eventos, um do PT e outro da prefeitura mesmo. Nunca concordei em ir, principalmente porque não aprovo o atual governo municipal que pouco faz pela habitação social, minha área de trabalho lá.

Mas não ter ido foi a deixa para que os demais funcionários reclamassem ao presidente da empresa pública que faço parte. E isso, aliado ao fato de eu ter falado que não ia ao evento de hoje, fez o presidente cortar minha cabeça.

Ou quase.

Minha chefe intercedeu por mim.

Me pediu pra ir ao evento caso quisesse continuar trabalhando lá. Que pediu ao presidente que teria a última conversa comigo. Que eu teria de decidir por mim mesma, já que ela tinha feito mais que a parte dela. Que ela argumentou de tudo, até mesmo dizendo que "tinha gente que não trabalhava nada e só ia a eventos, enquanto a gente ralava até às 19h". No qual respondi pra ela: "Mas, pro presidente, é tudo igual, certo? Quem trabalha ou deixa de trabalhar, não importa. É mais importante quem vai a evento". Ela respondeu que sim, resignada, dizendo que até ela deveria ir mais a eventos, depois dessa.

E eu fui. Covardemente, estava eu lá no evento. No qual nem ouvi nada, absorta que estava em meus pensamentos.

Porque, apesar de ter a vida inteira pela frente, eu não abandonaria minha chefe. Eu não abandonaria o trabalho que me faz tão bem, apesar de tudo. Eu não abandonaria a verdadeira causa de eu estar lá: a população de Embu, as obras e o que poderia reverter por lá.

Covardemente, aceitei a ordem que estava muito disposta a desobedecer e sair de vez de Embu.

Pela minha chefe. Pelo trampo inacabado.

Quando sair de lá, terei de deixar tudo em ordem. Coisa que não teria vez agora. Quando sair de lá, já vai ser engatilhado num outro trampo. Porque idealismo não paga contas da casa.

Mas hoje foi a pior derrota que já sofri.

Ao fim do dia, indo embora, a chefe me disse um "Obrigada por ter ido. E me desculpa por ter te colocado nessa posição". No qual respondi: "Me senti muito mal hoje. Mas, desculpa, por que? Esse é o jogo, não? Se não fosse por você, eu não estaria aqui". Ela concordou, nos despedimos e fui embora.

Nunca chorei tanto. De raiva. De ódio. De mim mesma. Dos outros funcionários que ficaram batendo na tecla que eu nunca fui a nada. Mas, mais ódio de mim mesma. De não seguir meus pensamentos primários de ir embora. De ter aceitado a ordem.

Mas, depois, pensando melhor, fiquei feliz da chefe me defender. De me pedir algo tão caro a mim. Acho que ela entendeu que, por mais mínimo que seja participar de um evento, me era extremamente caro. E, mais que isso, eu sair da Companhia por isso era extremamente caro a ela. Acho que só ela sabe minha real importância lá dentro.

A pior coisa (ou melhor, sei lá), é que o trampo é realmente muito bom. Não trocaria por nada. Mesmo com todas essas babaquices. Mesmo com todos e demais contratempos.

Eu joguei, e perdi. Vamos ver até quando eu realmente aguento.

ps.: tenho cargo comissionado, de confiança, que quer que chamem. Mas, em hipótese nenhuma, estou ligada a algum político da cidade. Não fui indicada pelo presidente, pelo prefeito ou por algum deputado importante. Passei numa entrevista em que tive a sorte do presidente não ter nenhum conhecido arquiteto (ao contrário de quem ele escolheu pra assistente social). Tive a sorte de ter sido realmente escolhida pelo trabalho intelectual dentre outros arquitetos. E, pra mim, cargo de confiança significa confiança no trampo, sem ligações partidárias nenhuma que me fzaem ficar atrelada a eventos políticos. Mas, parece que pro presidente e pros demais bois do gado, não é assim....

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Notas rápidas

- Tenho voltado ao mau humor habitual de fim de tarde, no fim do expediente. Já conheço as causas, me resta paciência e alguma cerveja pra botar a cabeça em ordem pra me conformar e passar por cima disso. Entender tudo que me causa mau humor por uma outra perspectiva (já que um outro lado sempre existe, e muitas vezes bem mais nobre que o habitual).

- Me incomoda, em demasiado, pessoas egocêntricas. Não aquelas que falam dos seus problemas mas sabem ouvir os dos demais (portanto, nada a ver com meus amigos que falam pelos cotovelos, hehe), mas os que acham que tudo que se faz é mais importante, é mais trabalhoso. Querem mais atenção, não sabem ajudar nem sequer ouvir os problemas dos colegas. E, claro, acham que toda opinião dada é de suma importância, e não só mais uma a somar.

- Tenho percebido que, enquanto não me conformo com as coisas, fico de mau humor. E tenho certeza que ele só vai acabar quando me conformar com muita coisa. Quem diria que o clichê "revolta pura e simples de tudo vem de um não-conformismo" seria verdade...

Enfim.

Pra terminar bem, faz um ano que tô morando no centro!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Mais um projeto entregue!

Desde o começo do ano tô envolvida em concursos de projeto. O último teria sido o do Museu do Meio Ambiente, com meus sócios, em maio desse ano. Um dia depois de decidir dar um tempo nessa vida, a chefe chama pra um outro, com as sócias dela. Isso já foi falado por aqui, enfim.

Pois bem, hoje terminou de vez, entregamos e ficou lindo!

Mas o mais legal mesmo foram as discussões, as experiências, a dinâmica bem diferente dos meus amigos. Lá estava eu fazendo o papel de aprendiz, perto de tanta coisa que as mulheres já fizeram na vida.

Foi ótimo ter mais essa exepriência. Mesmo deixando tudo pra última hora, mesmo dormindo só duas horas no último dia, finalizando as pranchas das 20h de um dia às 14h do outro dia, passando frio em Taboão às 5 da manhã, vendo o sol raiar e a gente lá, no computador...

Foi ótimo, porque o mundo é muito maior do que o que nossos olhos vêem.
E é muito bom ter sempre essa certeza, em qualquer momento.

Mas, mais concurso, só ano que vem!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Mais do trampo

Tava lembrando, esses dias, de como comecei meu trampo em Embu.

[Pra quem não sabe, trabalho com urbanização de favela - minha função é principalmente na construção de unidades habitacionais. O que inclui vistoria, reuniões com moradores e resolver os inúmeros problemas de última hora.]

Mas cheguei numa época que as obras estavam bem paradas. Fiquei uns 10 meses só vistoriando a fase final de obra, que é bem estressante, mas monótono.

Não se compara a começo de obra.

É bem emocionante ver as paredes serem erguidas, acompanhar o projeto pra ver se os caras tão fazendo certo. Na obra de agora, estamos utilizando tijolos de solo-cimento, sem acabamento nenhum. Tudo aparente. O que redobra a nossa atenção quanto à execução. Tudo muito bonito, tudo muito estressante, mas emocionante, mesmo assim.

E eu, que nunca soube sequer dimensionar uma construção, nem fazer um projeto completo, estou lá manjando um pouco mais de estrutura, sabendo qual ferro e qual concreto usar. Sabendo passar as informações do projeto pros mestres-de-obra. Sabendo vistoriar e dar soluções em qualquer problema que apareça.

Esses dias falei pra chefe o quanto eles arriscaram comigo, contratar alguém que nunca teve experiência nisso pra cuidar de obras de tamanha responsabilidade. Daí que ela me contou que, na época que fiz entrevista, tinha mais duas meninas que interessaram a eles. Mas me escolheram porque eu era da UNICAMP, e que seria legal ter mais alguém representando uma faculdade pública (ela é da USP, e meu colega se formou na UNESP Bauru - os dois me entrevistaram).

Acho que pensaria da mesma forma.

Na segunda semana que cheguei, fui convocada pra fazer selagem numa favela, num sábado de manhã. Foi a primeira vez que vi minha responsabilidade, quando a chefe disse, numa reunião na sexta-feira, que era pros estagiários me obedecerem na área. Eles, que sabiam muito mais que eu de selagem, me respeitaram e me ajudaram bastante nesse começo. Ficamos amigos e tomávamos umas cervejas algumas noites. Pena que foram embora, por causa do fim do contrato.

De lá pra cá, minha chefe já me deu broncas homéricas. Dessas que o pessoal vem me perguntar depois se eu tava bem. Como sou bem tranquila, nunca me afetou muito. Até porque eu tava errada mesmo. Mas com o tempo começamos a nos entender melhor [a ponto de estar num projeto paralelo com ela]. Acho que peguei o ritmo dela, embora eu ainda acho que faço muito pouco por lá, perto dela e do meu colega. Mas, desde o começo, sempre a admirei muito [e isso nem é puxa-saquismo, não faço questão disso] e me espelho nas ações dela. É bom ter alguém admirável no trampo. Me faz bem ter alguém que me entende quando fico frustrada com muita coisa.

Acho que estou indo bem. Exceto os desmandos políticos e demais ações arbitrárias, não imaginaria trampo melhor prum começo.

Valo Verde - Embu/SP

domingo, 25 de julho de 2010

Minhas férias

Minha férias foram de duas semanas. Uma bem gasta em São Paulo, outra em Rio das Pedras (falei da cidade a um tempo atrás, aqui). Primeiras férias remuneradas, primeiras férias da vida proletária. Primeiras férias de verdade na vida adulta.

Acordava todo dia ao meio-dia. Enrolava até às 14h pra almoçar qualquer coisa. Aproveitei pra montar melhor meu projeto de pesquisa pro mestrado. Pensei um pouco, todo dia, no projeto do concurso. Ficava procrastinando horas na net. Passeava tranquilamente pelo centro da capital enquanto o mundo girava loucamente. Saía às noites, mas isso já é bem normal na minha vida.

A outra semana, gasta no interior, foi ainda mais inútil. Não fazia absolutamente nada a não ser assistir televisão na companhia da minha avó e da mamãe (como vocês sabem, não tenho tv em casa, de modo que me impressiono com a ainda qualidade ruim dos programas...). Vi meus parentes de lá. Todos muito bem. Vi meus primos mais novos, de 5 e 2 anos, e fiquei feliz o resto dos dias por ter brincado com eles a tarde inteira. Fiquei feliz da minha priminha de 2 anos não ter chorado ao ter me visto, e ter conversado comigo (como se eu entendesse esse dialeto das crianças...).

Vi bons amigos, fui a bares, tive ótimas conversas. Nem sequer me preocupei com Embu (só quando acordava, imaginando que o povo devia estar se preparando pro almoço). Não fui ao ENEA, como era planejado, mas creio que isso me fez um bem danado...

Hoje, encontrando minha chefe, já me inteirei de todas as fofocas. Fiquei feliz de ter conversado com ela sobre muita coisa, como sempre acontece quando conversamos. Fiquei feliz de não ter "feito" nenhuma burrada grande na minha ausência. E fiquei com saudade de Embu, até.

E agora tô nesse misto de vontade de voltar a trabalhar e vontade de ficar a toa por mais tempo...mas tenho certeza de que essa pausa fez meu humor melhorar muito. Espero que dure muito tempo!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Conclusões

Conclusões tiradas de uma conversa de cerca de 40 minutos, na carona de Embu pra São Paulo hoje de noite:

- O mundo é, realmente, muito pequeno.
- Sempre temos uma expectativa, seja boa ou ruim. Se é boa, sempre quebramos a cara quando não há o cumprimento dessa promessa.
- Um otimismo de vez em quando não faz mal a ninguém.
- Trabalhar com o que se gosta é, definitivamente, melhor que trabalhar por dinheiro.
- Trabalhar com o que se gosta traz bons amigos.
- Nossa geração é a da apatia. Genericamente falando.
- Ser resistência num lugar majoritário de idéias ruins faz mal ao trampo e à saúde. Mas compensa por cada luta travada. Se ganha, melhor ainda!
- Tenha cuidado com o que faz hoje. O mundo, definitivamente, dá voltas.
- Conversas com clima bom curam tosse e febre. Sem precisar de remédios.
- Amigos de 30 anos (ou mais) tem, realmente, a vocação de serem maternais/paternais. No mínimo, fraternais.

Hoje foi a melhor carona, em termos de conversa. Bom ter uma conversa limpa e sem restrições com quem já ocupou meu cargo atual e hoje divide outras responsabilidades. Bom ter alguém que me entende, mesmo conversando comigo de vez em nunca. Mas que me é uma pessoa mais do que querida, apesar das brigas entre nossas secretarias.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Embu

Por esses dias, mais precisamente dia 22 de junho, fez um ano que estou trabalhando em Embu. Diferentemente dos empregos anteriores, esse eu não vejo perspectiva de sair tão cedo. De vários pontos de vista, não é um trabalho bom. Não ganho tão bem quanto uma arquiteta deveria. Trabalho muito mais que as 8 horas diárias [incluindo alguns fins de semana]. É estressante lidar com comunidades difíceis quase sem ajuda. É penoso demais tratar com empreiteiros ruins. Nessa semana e algumas anteriores, tenho ficado com um mal humor e desânimo que nunca tinha visto em mim mesma.

Mas tenho muita sorte de contar com uma chefe muito compreensiva, que me pede pra respirar fundo e ter calma quando chego das obras completamente desanimada e xingando meio mundo. Que me dá carona com muita conversa boa, sempre com um desabafo de ambas as partes, sempre com muita compreensão. Tenho sorte de ter um amigo-colega arquiteto que me faz dar risada e me permite tirar sarro dele, pra ter alguma risada no meio de um monte de problemas que não conseguimos resolver. Coisas que fogem à nossa alçada. De colecionar figurinhas da copa comigo e de conversar sobre os problemas do mundo, tentando, ambos em vão, solucioná-los.

Diria que o ambiente de trabalho é muito bom, mesmo com algumas pessoas que me trazem uma energia negativa muito forte [bom, vocês sabem, eu acredito na energia que passamos de um para outro].

O fato é que os dois arquitetos do trampo me fazem ver o lado bom de se trabalhar no poder público, me fazem ver que não sou a única idealista nesse mundo dessa forma, me fazem ver meus erros e me ajudam sempre que preciso (e sempre que não peço ajuda). Me fazem ver que o pouco que fazemos todo dia, e as muitas conversas pós expediente ajudam e muito esta cidade da região metropolitana de SP esquecida por muita gente que deveria estar lá, nos ajudando. Me fazem conhecer gente nova que me acrescenta muito na vida, mesmo eu retornando tão pouco perto deles.

Acho que vou ter sempre um carinho enorme por Embu. Pelas pessoas, pelas coincidências de um mundo cada vez menor. Pela oportunidade e pela experiência. Pelo prazer de viajar todo dia, pelos bares de algumas noites estafantes.

domingo, 30 de maio de 2010

Cachaça no fim de semana

O fim de semana dessa vez começou, de novo, numa quinta-feira.

Quinta-feira, eu tava com gripe mais ou menos forte. O corpo doía e eu mal conseguia conversar com os mestres de obra e com o pessoal do escritório. Fui embora pensando num banho quente e capotar na cama. Eis que minha amiga mais alcóolatra me liga, dizendo que tava num bar na Paulista. Para rebater o frio, fomos de cachaça. Duas doses. Mal me lembro como cheguei em casa, embora tenha certeza de ter chegado cedo.

Sexta-feira, lá estava eu em Embu, com dor de cabeça, morrendo da gripe. Tinha reunião sobre o Plano Diretor às 9 da manhã, e até consegui acompanhar bem. Sorte minha que o arquiteto colega de trampo foi junto. Tinha de me recuperar rápido pra balada da noite, mas no fim me recuperei antes. Ajudei a chefe na formatura dos jovens do curso de Construção Civil que ela tava encabeçando e eu, dando apoio e ajuda. Ficamos no ginásio de Embu até às 22h. A balada já era, mas fomos num bar da praça, junto com um pessoal muito bacana da Secretaria de Participação Cidadã. Fiz mais uns bons amigos de copo e de vida. Foi divertidíssimo! Voltei de carona, às 3 da manhã.

Sábado, acordei meio cedo pra fazer compras, mas nem deu tempo. Uma outra amiga, que a um bom tempo não via, me chamou pra passear na Liberdade. Passeio de família, como diria ela. Almoço japonês, e mais cerveja a noite. Muito legal colocar o papo em dia e desenvolver novas conversas, mesmo a conhecendo a 4 anos. Fui dormir cedo, porque o dia seguinte teria reunião.

Domingo, reunião no Morumbi com a chefe e duas amigas. Mais um concurso. Muitas histórias boas, algum projeto desenvolvido. Muita conversa com a chefe. Reparei que ela confia muito em mi, o que me fez ter um senso de responsabilidade maior.

Um fim de semana bem heterogêneo, mas revigorante. Acho que precisava me matar mais de vez em quando, como nesse fim de semana.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Mães

Acho que não é segredo que tenho duas mães, a de sangue e a de coração.

O que talvez ninguém mais saiba, a não ser o pessoal de Embu, é que tenho mais duas mães por lá.

Uma surgiu depois de uma brincadeira do técnico de informática, ao ver a "semelhança" entre eu e a diretora administrativa, já que estávamos com o mesmo corte de cabelo, óculos parecidos e camiseta da mesma cor. Virou piada instantânea, muitas vezes relembrada pelo pessoal do administrativo. Me traz boas risadas no dia!

A outra é a motorista da caminhonete frankstein que temos por lá, a que vai comigo nas obras, me dá palpites do que tenho de fazer. Que já trabalhou na defesa civil e no cemitério da cidade (dentre outros empregos - esses são os que ela mais me conta histórias). E que me leva o almoço de cada dia (logicamente eu pagando - monetariamente - por isso).

E lembrei de toda essa história na ocasião do dia das mães, quando metade do escritório me perguntava o que daria de presente a uma mãe, e outra metade, à outra mãe [no fim, acabei não comprando nada].

Acho que tenho vocação pra ser cuidada, mesmo que inconscientemente.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Era uma vez

Era uma vez um país. Este país viveu mais de 300 anos sob administração de ditadores. Em cerca de 300 anos nenhum cidadão podia eleger seu representante máximo, em nenhuma instância. Nesse tempo todo, foram os anos que este país mais fortaleceu sua infra-estrutura e mais (rodovias, ferrovias, indústrias, por exemplo). Não a toa, ainda conhecemos pessoas desse país que evocam com paixão e saudosismo os anos ditatoriais.

As pessoas desse país, por não conviverem a tanto tempo com o sufrágio universal, se acostumaram logo a ficar à mercê dos líderes, mesmo em tempos de democracia. As cobranças dos cidadãos, quando existiam, eram logo repelidas pela polícia (que, obviamente, foi criada para proteger o governo e não a população - só depois alguns membros desse órgão tiveram a noção que a polícia estava a serviço da justiça, seja de que lado fosse).

Por nunca terem convivido muito tempo com a opção da escolha, as pessoas desse país também se acostumaram com as mazelas do país e com a ineficiência do governo (que nunca se acostumou à servir à população, preferindo sempre a servir a si mesmo, em todos os sentidos - econômico preferencialmente). Era comum dizerem que sempre foi assim, nunca mudou e nunca vai mudar.

Não dá pra entender se isso era um pessimismo generalizado, era questão de cultura, simplesmente apatia ou medo da tal polícia.

E, por isso mesmo, aceitavam de bom grado que serviços essenciais à vida, como saneamento básico e eletricidade, fossem monopolizados. Numa primeira fase, esse monopólio era do governo. A partir de um tempo, o governo repassou esse monopólio a outras empresas, para que estas controlassem tanto as tarifas quanto a qualidade do serviço. Essas empresas chegaram à conclusão que terceirizar o serviço dava mais lucro e menos dor de cabeça. Porque o problema não era deles mais, e sim da terceirizada. E terceirizadas, nesse país, faziam o trabalho pelo menor preço com a pior qualidade possível, dado o material de péssima qualidade e mão-de-obra tão ruim quanto. Tudo pra gastar menos e ter mais lucro.

Essas empresas, com livre arbítrio, começaram a se estruturar melhor, ganhando um lucro considerável em cima de serviços essenciais. Com mais lucro por menos qualidade, uma dessas empresas chegou até mesmo a aplicar a grana numa bolsa de valores no país mais poderoso deste mundo. E o lucro quadruplicava em semanas. A qualidade piorava a cada dia. Tinham a certeza de que, se alguém reclamasse, podia ficar sem tal serviço, numa certa brincadeira de represália.

Já que eram os únicos a dar tal serviço, ninguém se atrevia a contestar sua autoridade no assunto. Afinal, era a única mesmo, as pessoas de tal país tinham de se contentar com isso...E o país ficou nisso por um bom tempo. Não há registro de que algo tenha melhorado nesse quesito.

[Esse post vai em "homenagem" aos inúmeros palavrões proferidos hoje a uma certa empresa de saneamento básico. Provavelmente escreva mais sobre esse país daqui a um tempo. Até porque não falei nada da área que atuo diretamente: a habitação.]