Hoje soube que uma grande amiga minha estava em São Paulo. Ela mora em outra cidade. Sempre que nos falávamos por e-mails, dizíamos a velha expressão corriqueira: "Quando aparecer por aqui, me avisa!". Tanto eu pra ela, quanto ela pra mim. A expressão é corriqueira, mas vem carregada de saudades e de ansiedade. É verdadeira, de coração, e eu achava que pelo menos meus amigos levariam a sério.
Mas essa minha amiga não levou. Soube por outros amigos que ela estava a menos de um quilômetro da minha casa. Soube, também, que ela estava na companhia de um dos meus piores desafetos. E, me disseram que talvez por isso ela não tinha me ligado, ou me avisado.
Daí me lembrei de que, desde o dia que desmascarei o cara para todo mundo e mostrei o quanto ele era anti-ético, ela brigou comigo. Disse que tinha de ter conversado com ele antes, que não concordava com a minha posição. Até aí, tudo bem porque politicamente a gente não se dava bem mesmo. Ela sempre questionava posições e ações políticas, desde a faculdade, mas isso nunca foi impeditivo para perdermos a amizade.
Mas, dessa vez, parece que a amizade acabou de vez. Parece que o anti-ético ganhou bem a simpatia e confiança dela. E, dessa vez, parece que ficar ao lado dele é estar contra mim. Eu não consigo manter contato com ela, enquanto ele se desfruta da ótima companhia dela bem mais que eu.
Foi a segunda vez que perdi uma amiga querida. Ainda me lembro bem da primeira vez. Mas, como da outra vez, a ausência delas foi, de certa forma, compensada por outras ótimas pessoas. Nas as substituem, mas me fazem crescer, me fazem rir, me ensinam, me acolhem.
Sinto bastante a falta delas. Me faz mal comparar o passado e o presente. De uma forma muito dura, aprendi a valorizar e dar os devidos créditos ao passado, e seguir em frente.
sábado, 30 de junho de 2012
domingo, 3 de junho de 2012
Suzano
A uns 4 meses atrás, fui fazer uma reunião com uma amiga de um amigo sobre um projeto de arquitetura na cidade de Suzano. Saí de lá na certeza de que eles não aceitariam minha proposta. A certeza se baseava no irmão estúpido da amiga, que queria que desenhasse o que ele queria, sem nenhum cabimento.
Hoje voltei pra lá, com motivos mais nobres, menos individualistas. Acabei integrando, onde trabalho, mais uma equipe, que desenvolveu o projeto para 144 famílias da associação de moradores de lá. Do jardim Natal, mais especificamente.
Visitamos, de carro, os dois terrenos, ainda livres, ainda com mato - embora um tenha sido limpo recentemente. Coincidentemente, este último está a duas quadras do lugar que visitei a 4 meses atrás. Mas, fomos para lá para acompanhar a assembléia desse mês, onde os 144 se reúnem para falar de pautas específicas a eles. Fomos eu e meu mais novo colega de trampo e de bebidas.
Foi impossível não fazer um paralelo às reuniões que fazia em Embu. E muitas coisas diferem de uma experiência à outra. Quando, em Embu, eu fazia reuniões, agora eu acompanhava e aprendia afazer intervenções com meu colega. Em Embu, eram no máximo 19 famílias, agora eram 144. Em Embu, eu imaginava, e incentivava, sempre, ao pessoal se organizarem e serem mais unidos. Em Suzano, eles já estavam agregados, tinham lideranças, sabiam ouvir e respeitar os falantes. Em Embu eu penava para dar respostas de perguntas cada vez mais duras, e muitas vezes a reunião acabava com gosto amargo.
E aí acho que entendi que, por mais estressante que fosse nosso papel no Estado, meu trabalho era relativamente mais fácil. Não sei precisar porquê. Numa assessoria técnica, logo vi que nosso papel seria bem mais dificultoso. Também não sei precisar porquê. Acho que terei a resposta em algumas semanas.
Mas, não foi difícil também imaginar como seria o futuro do Valo Verde, por exemplo, se fossem organizados e unidos como o pessoal do jardim Natal. Teriam algumas boas diferenças. O pessoal com quem me encontrava em Embu eram muito mais aguerridos que esse de Suzano. Talvez a diferença da renda seja uma boa resposta a essa grande diferença: os de Suzano era visivelmente melhores de vida que os de Embu.
Talvez eu tenha me enganado. Mas os de Suzano são mais pacíficos, mais tranquilos, talvez por terem tudo na mão, sempre. São o pessoal mais próximo da "nova classe c" que já conheci nos movimentos de moradia (e, infelizmente, conheço poucos). Não lutaram pelos terrenos, não tiveram casas incendiadas, não moravam em áreas de risco. Por outro lado, eles vão ter de se organizar para construírem suas próprias casas, para fazerem uma auto-gestão funcionar até o fim. Eles são os donos da construção.
Voltei com um misto de apreensão e felicidade. E bem mais pensativa sobre a vida.
Hoje voltei pra lá, com motivos mais nobres, menos individualistas. Acabei integrando, onde trabalho, mais uma equipe, que desenvolveu o projeto para 144 famílias da associação de moradores de lá. Do jardim Natal, mais especificamente.
Visitamos, de carro, os dois terrenos, ainda livres, ainda com mato - embora um tenha sido limpo recentemente. Coincidentemente, este último está a duas quadras do lugar que visitei a 4 meses atrás. Mas, fomos para lá para acompanhar a assembléia desse mês, onde os 144 se reúnem para falar de pautas específicas a eles. Fomos eu e meu mais novo colega de trampo e de bebidas.
Foi impossível não fazer um paralelo às reuniões que fazia em Embu. E muitas coisas diferem de uma experiência à outra. Quando, em Embu, eu fazia reuniões, agora eu acompanhava e aprendia afazer intervenções com meu colega. Em Embu, eram no máximo 19 famílias, agora eram 144. Em Embu, eu imaginava, e incentivava, sempre, ao pessoal se organizarem e serem mais unidos. Em Suzano, eles já estavam agregados, tinham lideranças, sabiam ouvir e respeitar os falantes. Em Embu eu penava para dar respostas de perguntas cada vez mais duras, e muitas vezes a reunião acabava com gosto amargo.
E aí acho que entendi que, por mais estressante que fosse nosso papel no Estado, meu trabalho era relativamente mais fácil. Não sei precisar porquê. Numa assessoria técnica, logo vi que nosso papel seria bem mais dificultoso. Também não sei precisar porquê. Acho que terei a resposta em algumas semanas.
Mas, não foi difícil também imaginar como seria o futuro do Valo Verde, por exemplo, se fossem organizados e unidos como o pessoal do jardim Natal. Teriam algumas boas diferenças. O pessoal com quem me encontrava em Embu eram muito mais aguerridos que esse de Suzano. Talvez a diferença da renda seja uma boa resposta a essa grande diferença: os de Suzano era visivelmente melhores de vida que os de Embu.
Talvez eu tenha me enganado. Mas os de Suzano são mais pacíficos, mais tranquilos, talvez por terem tudo na mão, sempre. São o pessoal mais próximo da "nova classe c" que já conheci nos movimentos de moradia (e, infelizmente, conheço poucos). Não lutaram pelos terrenos, não tiveram casas incendiadas, não moravam em áreas de risco. Por outro lado, eles vão ter de se organizar para construírem suas próprias casas, para fazerem uma auto-gestão funcionar até o fim. Eles são os donos da construção.
Voltei com um misto de apreensão e felicidade. E bem mais pensativa sobre a vida.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Pedreiros
Voltei a Embu, voltei a visitar as obras e as favelas.
Mas só por um dia.
Que foi suficiente para muitas emoções pelo resto da vida.
No começo da semana disse a uma amiga que tinha muito orgulho de ter trabalhado lá.
Hoje me senti novamente muito feliz, mesmo com os mesmos problemas de quando estava lá.
Porque ver a alegria dos pedreiros me renovou muita coisa quase esquecida.
Ver a felicidade deles me mexeu mais que a alegria dos novos e antigos moradores do Valo Verde. Mais que o jogo de futebol com os filhos de uma delas.
Os pedreiros ficaram felizes pela minha rápida visita a eles. Não sei o que achavam de mim, mas eles, de fato, me ajudaram muito no meu começo de experiência de obras. Sempre pacientes, sempre solícitos.
Me defenderam quando eu estava sem forças, quando recebi acusações injustas.
Todos, com mais de sessenta anos, me abraçaram hoje como se fosse uma da família deles.
Rimos com as conversas e com as piadas que nem parece que em algum lugar ainda existe a hierarquia pedreiro-mestres de obra-arquitetos.
Acho que nunca fiquei tão feliz.
Porque, no fim, eles eram os protagonistas. Eram quem traduziam minhas "ordens" (ou sugestões) em um trabalho impecável.
Sempre os tratei com nenhuma hierarquia. Pedia um serviço como quem pede um favor a um amigo.
E eles, sempre me tratando com respeito.
Um deles me repetiu hoje a mesma coisa de quando eu saí: "Você nos trata bem, não é desses que não se mistura com a gente."
Fiquei feliz pelo máximo que pude fazer. E sei que poderia ter feito mais. Pena que minha fraqueza foi maior.
Mas hoje, pelo jeito, sei que fiz alguma diferença na vida deles.
E sei que eles fizeram na minha também.
Todos me desejaram muito sucesso na vida. Todos me abençoaram, via deus. Não sei se consigo retribuir na mesma moeda, mas sei que eles serão sempre muito queridos por mim.
Ir pra Embu sempre me afeta muito. Sempre me transforma numa pessoa melhor.
Acho que vou sempre precisar de idas pra lá.
Porque, mesmo com os problemas, mesmo não conseguindo resolver nada, mesmo que eu tenha saído de forma abrupta e, em parte, contra a vontade, Embu fez a diferença em mim. E vai ser sempre uma das melhores experiências que tive. Porque o aprendizado e as amizades verdadeiras foram infinitamente maiores e melhores que os problemas pelos quais passei.
Mas só por um dia.
Que foi suficiente para muitas emoções pelo resto da vida.
No começo da semana disse a uma amiga que tinha muito orgulho de ter trabalhado lá.
Hoje me senti novamente muito feliz, mesmo com os mesmos problemas de quando estava lá.
Porque ver a alegria dos pedreiros me renovou muita coisa quase esquecida.
Ver a felicidade deles me mexeu mais que a alegria dos novos e antigos moradores do Valo Verde. Mais que o jogo de futebol com os filhos de uma delas.
Os pedreiros ficaram felizes pela minha rápida visita a eles. Não sei o que achavam de mim, mas eles, de fato, me ajudaram muito no meu começo de experiência de obras. Sempre pacientes, sempre solícitos.
Me defenderam quando eu estava sem forças, quando recebi acusações injustas.
Todos, com mais de sessenta anos, me abraçaram hoje como se fosse uma da família deles.
Rimos com as conversas e com as piadas que nem parece que em algum lugar ainda existe a hierarquia pedreiro-mestres de obra-arquitetos.
Acho que nunca fiquei tão feliz.
Porque, no fim, eles eram os protagonistas. Eram quem traduziam minhas "ordens" (ou sugestões) em um trabalho impecável.
Sempre os tratei com nenhuma hierarquia. Pedia um serviço como quem pede um favor a um amigo.
E eles, sempre me tratando com respeito.
Um deles me repetiu hoje a mesma coisa de quando eu saí: "Você nos trata bem, não é desses que não se mistura com a gente."
Fiquei feliz pelo máximo que pude fazer. E sei que poderia ter feito mais. Pena que minha fraqueza foi maior.
Mas hoje, pelo jeito, sei que fiz alguma diferença na vida deles.
E sei que eles fizeram na minha também.
Todos me desejaram muito sucesso na vida. Todos me abençoaram, via deus. Não sei se consigo retribuir na mesma moeda, mas sei que eles serão sempre muito queridos por mim.
Ir pra Embu sempre me afeta muito. Sempre me transforma numa pessoa melhor.
Acho que vou sempre precisar de idas pra lá.
Porque, mesmo com os problemas, mesmo não conseguindo resolver nada, mesmo que eu tenha saído de forma abrupta e, em parte, contra a vontade, Embu fez a diferença em mim. E vai ser sempre uma das melhores experiências que tive. Porque o aprendizado e as amizades verdadeiras foram infinitamente maiores e melhores que os problemas pelos quais passei.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Sobre chefes
Eu tive dois empregos que me marcaram muito nessa vida, até agora.
Um foi em Campinas, ainda como estudante de Arquitetura, num escritório que fazia projetos de iluminação. Antes de ir pra lá, eu trabalhei numa assistência técnica a uma grande empresa de luminárias. Fazia projetos pro Brasil inteiro. Um dia me cansei, fiquei de molho um mês em casa, depois fiquei cerca de 3 meses num escritório fajuto de arquitetura, e logo fui chamada por um colega para ajudá-lo no escritório que ele havia recém-aberto. Só trabalhava com iluminação, e como era eu, ele e mais um instalador eletricista, tínhamos isonomia total. Quando o negócio tava dando muito certo, eu fazia alguns projetos e meu "chefe" fazia outros. Tudo era decidido coletivamente, desde o orçamento a ser entregue ao cliente quanto às soluções de projeto. As reuniões com os cliente ficavam a cargo do chefe, com muito mais lábia que eu, e a mim cabia convencer o cliente através da matemática e dos programas específicos. O salário não era típico de estagiário, eu recebia quase que como profissional recém-formado. Me bancava o aluguel e as cervejas, e isso me bastava. Fiquei lá de 2005 a 2008, até me formar e decidir voltar pra São Paulo.
O outro trampo foi mais tarde, em 2009. Funcionária pública da cidade de Embu das Artes, trabalhando diretamente com coordenação de obras - principalmente - e muitas outras coisas secundárias, envolvendo favelas e habitação de interesse social. Fazia de tudo um pouco, mas ainda com a mesma isonomia do trabalho de Campinas, sendo este conquistado com muito trabalho. Foi lá que firmei em mim mesma minhas convicções políticas, foi lá que me desapeguei de muita coisa, foi lá que vivi com o mínimo possível morando de aluguel e ainda pagando minhas cervejas, morando no centro de São Paulo. Ainda era o que bastava à minha vida. Desse emprego já falei muito por aqui.
O que tem de comum nos dois lugares era a confiança dos chefes e a isonomia, cada um fazendo sua parte para o todo, cada um de nós contribuindo no melhor que podiam. De modo que, quando chamo de "chefe" cada um deles, nada mais é que uma maneira irônica de chamá-los, já que de forma alguma eram chefes no modo hierárquico de se resolver a vida profissional. Eram colegas e, antes de tudo, amigos que me ajudavam de toda forma possível. Me ouviam, me davam conselhos, me davam cerveja e me faziam rir e refletir através das inúmeras histórias. Cada um a seu jeito. E que sabiam confiar, delegar tarefas e passar responsabilidade como se fôssemos todos iguais. E éramos. Bons tempos...!
E me coloquei a postar isso hoje porque, depois de 4 anos, revi meu chefe de Campinas, com a banda dele aqui em São Paulo, onde colocamos a conversa em dia, rimos bastante e me bateu uma baita saudade da vida campineira muito tranquila e cheia de responsabilidades, ainda assim.
Um foi em Campinas, ainda como estudante de Arquitetura, num escritório que fazia projetos de iluminação. Antes de ir pra lá, eu trabalhei numa assistência técnica a uma grande empresa de luminárias. Fazia projetos pro Brasil inteiro. Um dia me cansei, fiquei de molho um mês em casa, depois fiquei cerca de 3 meses num escritório fajuto de arquitetura, e logo fui chamada por um colega para ajudá-lo no escritório que ele havia recém-aberto. Só trabalhava com iluminação, e como era eu, ele e mais um instalador eletricista, tínhamos isonomia total. Quando o negócio tava dando muito certo, eu fazia alguns projetos e meu "chefe" fazia outros. Tudo era decidido coletivamente, desde o orçamento a ser entregue ao cliente quanto às soluções de projeto. As reuniões com os cliente ficavam a cargo do chefe, com muito mais lábia que eu, e a mim cabia convencer o cliente através da matemática e dos programas específicos. O salário não era típico de estagiário, eu recebia quase que como profissional recém-formado. Me bancava o aluguel e as cervejas, e isso me bastava. Fiquei lá de 2005 a 2008, até me formar e decidir voltar pra São Paulo.
O outro trampo foi mais tarde, em 2009. Funcionária pública da cidade de Embu das Artes, trabalhando diretamente com coordenação de obras - principalmente - e muitas outras coisas secundárias, envolvendo favelas e habitação de interesse social. Fazia de tudo um pouco, mas ainda com a mesma isonomia do trabalho de Campinas, sendo este conquistado com muito trabalho. Foi lá que firmei em mim mesma minhas convicções políticas, foi lá que me desapeguei de muita coisa, foi lá que vivi com o mínimo possível morando de aluguel e ainda pagando minhas cervejas, morando no centro de São Paulo. Ainda era o que bastava à minha vida. Desse emprego já falei muito por aqui.
O que tem de comum nos dois lugares era a confiança dos chefes e a isonomia, cada um fazendo sua parte para o todo, cada um de nós contribuindo no melhor que podiam. De modo que, quando chamo de "chefe" cada um deles, nada mais é que uma maneira irônica de chamá-los, já que de forma alguma eram chefes no modo hierárquico de se resolver a vida profissional. Eram colegas e, antes de tudo, amigos que me ajudavam de toda forma possível. Me ouviam, me davam conselhos, me davam cerveja e me faziam rir e refletir através das inúmeras histórias. Cada um a seu jeito. E que sabiam confiar, delegar tarefas e passar responsabilidade como se fôssemos todos iguais. E éramos. Bons tempos...!
E me coloquei a postar isso hoje porque, depois de 4 anos, revi meu chefe de Campinas, com a banda dele aqui em São Paulo, onde colocamos a conversa em dia, rimos bastante e me bateu uma baita saudade da vida campineira muito tranquila e cheia de responsabilidades, ainda assim.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Mulheres e moradia
Vai ser meio que continuação do já antigo post anterior.
Depois do happy hour com os novos amigos de trabalho e alguns velhos amigos da vida, nesta quarta-feira, recebo uma mensagem da minha irmã sobre uma ocupação no centro que seria feita por mulheres dos movimentos por moradia - por conta não só dos milhares de problemas habitacionais no estado, mas também pelo dia internacional da Mulher. Isso já era 23:00h, a concentração seria na Liberdade, na mesma hora. Ficamos no bar até às 23:30h, e discutimos um pouco sobre a ocupação e os reais interesses, eu sendo bem reticente. Decidi ir, e eu tava bem curiosa para saber como seria uma ocupação. Porque, apesar de sempre ser a favor de ocupações, nunca tinha acompanhado uma de perto.
No fim, fomos eu e mais uma amiga (uma das responsáveis por eu estar no atual trampo - e velha companheira de reflexões políticas). Estava frio e não sabíamos o endereço. Liguei pra minha irmã, ela também não sabia. Um amigo nosso em comum nos passou o número, e fomos a caminho, mas foram as mulheres que nos encontraram. Cerca de 70, em passeata até o prédio a ser ocupado. Perguntamos se estavam na reunião, nos confirmaram e que estavam indo pra ação. Acompanhamos, fazendo várias conjecturas sobre o que iria acontecer.
Chegamos no lugar, havia cerca de 100 mulheres. Aos poucos ia chegando mais gente, acho que no total tinha umas 200 pessoas, maioria mulher. Quando chegamos tinha umas 20 pessoas já dentro do prédio, e uns 5 policiais militares impedindo qualquer um de entrar. Ficamos olhando as bandeiras dos vários movimentos, observando discussões de policiais com alguns manifestantes. Prestamos bastante atenção ao diálogo das mulheres com os policiais, elas sempre muito amáveis e firmes, eles com olhar blasé, mas sem violência.
À 1:00h, parecia que nada ia acontecer. As mulheres continuavam gritando palavras de ordem, policiais continuavam inflexíveis na proteção de patrimônio privado abandonado. Decidimos ficar mais meia hora, para ver se acontecia algo, mas já sem esperança. De repente, os policias saem da frente da porta, se dirigem aos carros e vão embora, e enquanto os manifestantes entram, outras mulheres se despedem carinhosamente dos policiais, agradecendo e tudo mais.
Eu nunca tinha acompanhado uma ocupação, mas ver os policiais saindo e deixando o caminho livre era inimaginável. Até minha amiga, bem mais militante que eu, estranhou. Ficamos ainda mais meia hora após a entrada, para ver se a polícia tinha desistido mesmo. Eles não voltaram, e quando foi 2:00h decidimos ir embora. A ocupação foi um sucesso, acredito que estão lá até agora, e acredito que vão ficar por um bom tempo.
Noite de muito pensamento. De bater uma certa depressão ao chegar em casa. De ver que, mesmo entre os poucos que tem algo, esse algo já é muita coisa.
2:00h - ocupação concluída
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Mais uma história de resistência
No dia que aconteceu tudo de pior no Pinheirinho, em São José dos Campos (ocupação em terreno ocioso de um pilantra imbecil que tem costas-quentes num governo louco por poder e que adora bater – literalmente - em quem atrapalha seu caminho), eu estava em Embu das Artes, de volta por um dia. Fui ajudar uma amiga numa pesquisa envolvendo as casas do pessoal reassentado em três projetos habitacionais de lá (no qual tive prazer de conhecer tanto a obra quanto os moradores, na minha passagem de dois nos por lá).
Cheguei em casa à meia-noite com um misto de alegria e de saudade. Feliz demais com o dia. Mas dou uma zapeada pelo facebook e leio milhares de mensagens sobre a violência covarde da PM em São José dos Campos. O que me fez escrever a história de um morador do Valo Verde, um dos locais de intervenção urbanística e habitacional que eu mais frequentava em Embu (e o que eu mais gostava - ainda gosto até hoje).
O Valo Verde era um dos lugares mais perigosos de Embu na década de 70 até o fim dos anos 90 [Embu das Artes era sinônimo de desova de corpos, ironicamente conhecida também pela feirinha de artes]. O Valo era uma favela sem as mínimas condições de habitabilidade. Barraco em cima de barraco, com o agravante de estarem próximos a um córrego que era o esgoto a céu aberto.
[Não conheci o bairro naquela época, mas quando ajudei na mudança do lugar onde trabalhei, achei uma caixa cheia de fotos e notícias do lugar, as quais fiquei horas olhando enquanto deixava a chefe na mão durante a mudança. E é essa a impressão que tenho de lá, naquele tempo].
Em cima da favela, na parte mais alta, a CDHU era - e ainda é - dona de um grande terreno, e queria fazer mais prédios por lá. Para fazer a obra, era necessário “limpar” o lugar para construir um muro de arrimo gigantesco. O “limpar” era retirar o pessoal da favela.
Um dia os moradores são surpreendidos por uma cavalaria da polícia militar e cerca de 20 caminhões-baú, para remover toda aquela gente de lá. Uma baita de uma confusão se instaurou no lugar, com os policiais querendo tirar o povo, e um vereador novato fazendo a negociação com o chefe da operação. Alguns moradores se exaltaram e brigaram com a polícia, mas não foram bem sucedidos. Ao fim, negociaram e deixaram a população lá. Não haveria reintegração de posse (nem deveria, o terreno que queriam limpar era – e ainda é – municipal).
O governo estadual teve a derrota. Governo, na época, de Mário Covas.
Mas isso não era sinal de calma. Por muitos dias a polícia aparecia insistentemente na área, causando medo na população, mesmo sem fazer nada fisicamente. Alguns dias depois, alguém do governo municipal apareceu por lá e pediu pra montar uma comissão urgente de três representantes da favela, para irem a uma reunião na CDHU exporem seu ponto de vista e pressionarem por paz. Um dos integrantes era o morador que me contou essa história. Ele me diz que foram à CDHU (que na época era na avenida Nove de Julho) e lá soube que o dirigente com quem conversaram tinha dito que já havia feito acordo com o município e não teria nenhuma ação por conta deles. A favela estava salva.
O fato é que a CDHU construiu mais prédios na área, não fez remoções indevidas, o município passou a investir um pouco mais no local e hoje, me dizem, o Valo Verde é um paraíso perto do que era.
Valo Verde - em 2003 e em 2007
Coincidentemente, soube dessa história no mesmo dia da covardia em São José dos Campos.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
O centro de SP
Morei 16 anos no Jardim Ângela (tido como o segundo bairro mais perigoso de SP, na época em que estava lá), depois fiquei 7 anos em Campinas (no centrinho do bairro classe média-alta perto da UNICAMP, lugar de estupros e assaltos constantes), voltei pra SP, fiquei mais 6 meses no Ângela, e logo me mudei pro centro de SP. Moro aqui há dois anos e meio.
No começo, a vida era ótima. Ônibus pra tudo quanto é lado, metrô do lado de casa, tudo é perto e os bares são baratos. Mas logo reparei que a ladeira da Memória era a casa de inúmeras crianças em situação de rua. A frente do meu prédio amanhecia com vários saquinhos com resquícios de cola de sapateiro. Quase toda noite tinha agentes de limpeza da prefeitura enxotando as crianças para poderem lavar a ladeira. Elas logo voltavam, arrumavam seus colchões e iam pedir dinheiro no bar mais próximo.
No primeiro ano de vivência no centro fui assaltada por uma dessas crianças. Eu estava na companhia de uma amiga, e tanto a criança tava louca de cola, quanto a gente tava doida de cerveja. A criança não quis meu celular (rejeitou na cara dura), e pudemos ir embora. A criança tinha 10 anos. Ao tomar o café da manhã no bar perto da casa dela, ela foi à nossa mesa pedir dinheiro. Minha amiga quis tirar foto com nosso assaltante, que admitiu, com palavras tortas, que foi ele mesmo. Nunca vi uma criança tão feliz por aparecer numa foto. Pagamos um lanche pra ele.
Uns 3 meses depois, as crianças tinham desaparecido. Logo imaginei grupos de extermínio. Mas, um ano depois, estavam de volta, para sumirem de vez meses depois.
Nesse segundo ano no centro, tive a idéia de ir andando à União de Mulheres de SP, no Bixiga. Dez minutos de caminhada, pertinho. Era domingo. No caminho, pela avenida Nove de Julho, um grupo de crianças doidas de cola me abordaram. Eu estava com um refrigerante, que deixei com elas. Eram mais de 10. Uma delas abriu minha mochila, que estava nas minhas costas, e prontamente foi repreendida pela criança mais velha, que me pediu desculpas. Não tive reação alguma.
Eu costumo chegar tarde em casa. Mas, em dois anos, tive apenas esses dois incidentes. Com crianças, que na abstinência, faziam qualquer coisa.
Hoje eu vi como vai ser o centro a partir de agora, com a política de dor e desespero. Se crianças nos deixam sem ação, com jovens e adultos a situação não melhora. É difícil falar de segurança pública com um governo desse. Que prioriza a truculência à ajuda. Que prefere mobilizar policiais para bater em estudantes e deixar o centro (e outras regiões tão perigosas quanto) desfalcado. Que prefere incitar o ódio da população aos que mais precisam dela. Que faz de tudo para que a população clame por gentrificação.
Estou de saco cheio disso tudo. Mas, pior ainda, estou de saco cheio de não saber como ajudar, sem depender do governo.
No começo, a vida era ótima. Ônibus pra tudo quanto é lado, metrô do lado de casa, tudo é perto e os bares são baratos. Mas logo reparei que a ladeira da Memória era a casa de inúmeras crianças em situação de rua. A frente do meu prédio amanhecia com vários saquinhos com resquícios de cola de sapateiro. Quase toda noite tinha agentes de limpeza da prefeitura enxotando as crianças para poderem lavar a ladeira. Elas logo voltavam, arrumavam seus colchões e iam pedir dinheiro no bar mais próximo.
No primeiro ano de vivência no centro fui assaltada por uma dessas crianças. Eu estava na companhia de uma amiga, e tanto a criança tava louca de cola, quanto a gente tava doida de cerveja. A criança não quis meu celular (rejeitou na cara dura), e pudemos ir embora. A criança tinha 10 anos. Ao tomar o café da manhã no bar perto da casa dela, ela foi à nossa mesa pedir dinheiro. Minha amiga quis tirar foto com nosso assaltante, que admitiu, com palavras tortas, que foi ele mesmo. Nunca vi uma criança tão feliz por aparecer numa foto. Pagamos um lanche pra ele.
Uns 3 meses depois, as crianças tinham desaparecido. Logo imaginei grupos de extermínio. Mas, um ano depois, estavam de volta, para sumirem de vez meses depois.
Nesse segundo ano no centro, tive a idéia de ir andando à União de Mulheres de SP, no Bixiga. Dez minutos de caminhada, pertinho. Era domingo. No caminho, pela avenida Nove de Julho, um grupo de crianças doidas de cola me abordaram. Eu estava com um refrigerante, que deixei com elas. Eram mais de 10. Uma delas abriu minha mochila, que estava nas minhas costas, e prontamente foi repreendida pela criança mais velha, que me pediu desculpas. Não tive reação alguma.
Eu costumo chegar tarde em casa. Mas, em dois anos, tive apenas esses dois incidentes. Com crianças, que na abstinência, faziam qualquer coisa.
Hoje eu vi como vai ser o centro a partir de agora, com a política de dor e desespero. Se crianças nos deixam sem ação, com jovens e adultos a situação não melhora. É difícil falar de segurança pública com um governo desse. Que prioriza a truculência à ajuda. Que prefere mobilizar policiais para bater em estudantes e deixar o centro (e outras regiões tão perigosas quanto) desfalcado. Que prefere incitar o ódio da população aos que mais precisam dela. Que faz de tudo para que a população clame por gentrificação.
Estou de saco cheio disso tudo. Mas, pior ainda, estou de saco cheio de não saber como ajudar, sem depender do governo.
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